gabriel m. ribeiro
A memória repassa por estreitos corredores e escadas de uma casa de dois andares da Rua Cândido Gaffrée, onde outrora funcionou o Externato Cristo Redentor.
Uma escola que só atendia ao antigo curso primário - Jardim de Infância até à 4ª série.
Em sua direção as Irmãs Braga Furtado, D. Yvone e D. Yolanda, ambas já falecidas.
D. Yvone era uma liderança comunitária, e seus alunos recebiam rigorosa formação acadêmica e cívica. Muito religiosa, impunha às turmas, em formação no pequeno pátio frontal, além do hino nacional, as orações diárias.
Indisciplina não cabia dentro daquele colégio, pois D. Yvone reprimia com austeridade desde o início e esta não encontrava espaço para vingar.
Como curiosidade, entretanto, havia a punição que ela aplicava para quem ‘aprontasse’ mais do que o normal: a família era comunicada que o aluno ficaria na escola e almoçaria na casa dela. O “menu-castigo” seria: ensopado de jiló!
Qual nada, os poucos que sofreram esta penalidade almoçavam na verdade um belo bife, com batatas fritas e sorvete de sobremesa, mas com uma condição imperativa: teriam que confirmar a história do jiló para os demais (em uma cumplicidade secreta com ela). Demorei muito a saber disto.
Assim, D. Yvone e D. Yolanda lideraram esta maravilhosa instituição educacional com brilhantismo, até que a funesta Lei 5692/71, desorganizou a vida de inúmeras escolas que, como essa, só comportavam fisicamente o antigo curso primário.
Foi um duro golpe, a escola sofreu, as irmãs também e a comunidade perdeu um ícone da educação dos anos 50/60.
Mas com a missão cumprida, creio que as irmãs devem estar dando jiló para os anjos e serafins...
RJ, 25 / 07 / 08
sábado, 26 de novembro de 2011
Festa Junina
Em 1996, no Centro Educacional Anísio Teixeira (CEAT) – Santa Tereza – RJ, onde meus filhos estudaram, houve mais uma festa junina. O CEAT fica instalado em um castelo (de pedra, com torre e tudo, como nas histórias). O mote da festa era Luiz Gonzaga e Ana Cristina, maravilhosa professora de música foi a “âncora” da festa, conduzindo com maestria as várias etapas da mesma.
O dia estava horrível, um temporal ameaçava a festa, mas aí...
FESTA JUNINA
gabriel m. ribeiro
Era uma tarde fria de Sábado,
o tempo estava feio,
a torre de pedra agredia o cinza do céu,
a nuvem cor de chumbo envolvia a torre.
Tudo dizia para ficar em casa
ouvindo música, tomando vinho,
comendo queijinho...
Mas a tropa estava lá,
a mulherada do CEAT!
Mulherada de trança
laço de fita,
pinta no rosto e baton forte,
todas com sotaque de alegria.
A nuvem ficou mais baixa
mais agressiva,
mas a roda não parou
O fole foi e veio, veio e foi
Luiz Gonzaga
São Luiz Gonzaga
O do Gonzaguinha, o Gonzagão
Rei do Nordeste, da caatinga
do baião, do Sertão,
Rogai por nós.
A nuvem pretaiô,
mas Asa Branca bateu asas no CEAT
e a nuvem espalhou.
Xote, calango, catira
Jongo, toada, baião
Quadrilha...
...qual fogueira de São João!
E a mulherada na pilha
sem deixar a emoção fraquejar
cantando, girando, voando,
no som da viola, zabumba,
do arrasta sandalha,
da tremenda vontade de bailar.
Num choveu não sinhô
mas os rostos se molharam de suor
os olhos choraram de emoção
e a alegria de fazer bem feito
tomou conta da quadra,
subiu pela torre,
invadiu o castelo
e ficou no coração!
Parabéns pessoal que trabalhou
Impossível esquecer esta tarde
em que a nuvem negra,
cor de chumbo
nas asas de Gonzaga,
no colo do CEAT
na força de Ana Cristina
Cor de prata ficou!!!
- 11/06/96 -
O dia estava horrível, um temporal ameaçava a festa, mas aí...
FESTA JUNINA
gabriel m. ribeiro
Era uma tarde fria de Sábado,
o tempo estava feio,
a torre de pedra agredia o cinza do céu,
a nuvem cor de chumbo envolvia a torre.
Tudo dizia para ficar em casa
ouvindo música, tomando vinho,
comendo queijinho...
Mas a tropa estava lá,
a mulherada do CEAT!
Mulherada de trança
laço de fita,
pinta no rosto e baton forte,
todas com sotaque de alegria.
A nuvem ficou mais baixa
mais agressiva,
mas a roda não parou
O fole foi e veio, veio e foi
Luiz Gonzaga
São Luiz Gonzaga
O do Gonzaguinha, o Gonzagão
Rei do Nordeste, da caatinga
do baião, do Sertão,
Rogai por nós.
A nuvem pretaiô,
mas Asa Branca bateu asas no CEAT
e a nuvem espalhou.
Xote, calango, catira
Jongo, toada, baião
Quadrilha...
...qual fogueira de São João!
E a mulherada na pilha
sem deixar a emoção fraquejar
cantando, girando, voando,
no som da viola, zabumba,
do arrasta sandalha,
da tremenda vontade de bailar.
Num choveu não sinhô
mas os rostos se molharam de suor
os olhos choraram de emoção
e a alegria de fazer bem feito
tomou conta da quadra,
subiu pela torre,
invadiu o castelo
e ficou no coração!
Parabéns pessoal que trabalhou
Impossível esquecer esta tarde
em que a nuvem negra,
cor de chumbo
nas asas de Gonzaga,
no colo do CEAT
na força de Ana Cristina
Cor de prata ficou!!!
- 11/06/96 -
A Festa de Lucy
gabriel m. ribeiro
Ladeira dos Asturras, nobre Santa Teresa
Paralelepípedos em constelação urbana
Salão em arte decô, fios e som sobre a mesa
Dois sofás nus, sem cristais, nem porcelana.
Os quadros impressionistas rompem a frieza
O som, sutil flash-back, embala e engana
Os vestidos negros modelam as tigresas
Jeans e blaisers rompem a formalidade tirana.
A porta sempre aberta reafirma a clareza
Da presença infalível, altiva e soberana
De companheiros, colegas, amigos com certeza
Numa festa pagã, em uma noite mundana.
O som rasgava a cúmplice penumbra
Ocultava dramas e misturava os perfumes
Escondia as idades, e a vaidade deslumbra
Permitindo um flerte ousado, olhares e ciúmes.
Angústias das almas sangrentas e solitárias
Oferecia o bailar ondulado de ancas empinadas
Sugeria a permissiva atitude voyeur arbitrária
No decote ousado, ou nas pernas cruzadas.
Estimulava o fútil consumo dos vinhos
O beber intenso, ritmado, febril da cerveja
O cigarro mentol, a colônia de silvestre pinho
A diamba e o batom nos lábios cor de cereja.
A festa começava dentro de cada um
As livres conversas partiam-se pelo meio
As músicas viajam em tempos incomuns
Os corpos suavam suas carências sem freio.
As pernas bailavam intencionalmente sensuais
Os beijos enguliam-se em sôfregas paixões
Os canapés coloriam a mesa dos comensais
O gelo, amálgama de uísque e intenções.
A solidão da noite crescia para alguns
A evidente noite de amor a outros excitava
Na porta do toillete simpatias, zum-zuns
A festa, dentro de todos, continuava...
-16/05/99-
Ladeira dos Asturras, nobre Santa Teresa
Paralelepípedos em constelação urbana
Salão em arte decô, fios e som sobre a mesa
Dois sofás nus, sem cristais, nem porcelana.
Os quadros impressionistas rompem a frieza
O som, sutil flash-back, embala e engana
Os vestidos negros modelam as tigresas
Jeans e blaisers rompem a formalidade tirana.
A porta sempre aberta reafirma a clareza
Da presença infalível, altiva e soberana
De companheiros, colegas, amigos com certeza
Numa festa pagã, em uma noite mundana.
O som rasgava a cúmplice penumbra
Ocultava dramas e misturava os perfumes
Escondia as idades, e a vaidade deslumbra
Permitindo um flerte ousado, olhares e ciúmes.
Angústias das almas sangrentas e solitárias
Oferecia o bailar ondulado de ancas empinadas
Sugeria a permissiva atitude voyeur arbitrária
No decote ousado, ou nas pernas cruzadas.
Estimulava o fútil consumo dos vinhos
O beber intenso, ritmado, febril da cerveja
O cigarro mentol, a colônia de silvestre pinho
A diamba e o batom nos lábios cor de cereja.
A festa começava dentro de cada um
As livres conversas partiam-se pelo meio
As músicas viajam em tempos incomuns
Os corpos suavam suas carências sem freio.
As pernas bailavam intencionalmente sensuais
Os beijos enguliam-se em sôfregas paixões
Os canapés coloriam a mesa dos comensais
O gelo, amálgama de uísque e intenções.
A solidão da noite crescia para alguns
A evidente noite de amor a outros excitava
Na porta do toillete simpatias, zum-zuns
A festa, dentro de todos, continuava...
-16/05/99-
domingo, 9 de outubro de 2011
FEBRE
gabriel m. ribeiro
(Para: Delírio)
Febre queima, arde
Corpo, pele e cheiro
Goteja suor já é tarde
Sal na língua, brejeiro...
Dentes cravados na nuca
Mordida úmida lambida, cio
Contraem-se músculos e nervos
Espasmam-se paixões e delírios.
- 16/08/99 -
(Para: Delírio)
Febre queima, arde
Corpo, pele e cheiro
Goteja suor já é tarde
Sal na língua, brejeiro...
Dentes cravados na nuca
Mordida úmida lambida, cio
Contraem-se músculos e nervos
Espasmam-se paixões e delírios.
- 16/08/99 -
Farrapo
farrapo, caco, fragmento, resto, sobra e sucata
sentimento não-reciclável: o lixo existencial
trapo, fiapo, restolho, andrajo, molambo, rapa
carcaça não-consumível, acre luxo pestilencial.
gosto chumbo de bala e cor estanho no espelho
a morte crônica na vala neste estranho aparelho
o nó corpo despertencido, sem nunca ter sido.
- 16/10/03 -
gabriel m. ribeiro
EXODUS
EXODUS
gabriel m. ribeiro
Pudera infantil poeta,
Mexer com fogo, quisera
Pensando não sair tosquiado.
Varar úmidos bosques escuros
Repletos de mistérios, lianas e cipós
Enredando livres e puros sentimentos
Ausentes dos momentos de físicos afagos
Carícias metafóricas, ardentes e reticentes...
Versos entrelaçados, emoções envolventes
Corações abertos, desenfreados estragos
Berço aconchego de palavras alimento
Dura paixão nua, cega, cruel sem dó
Rima presente em verso sem futuro
Senha sutil, som amor camuflado
Ousar com a bela, sendo a fera
Ousando submetê-la, quieta.
Pudera lúdico menestrel
Acreditar que sairia impune
Dos labirintos infinitos do amor
Das trovas cantadas nas madrugadas
Das esperanças unidas por belas rimas
Da camuflagem mística do pseudônimo
Do verbo didático adjetivando sentimento
Das cores sinônimas de aquarelas distintas.
Hálito de beijo - solidão em literatas tintas
Cão vira - lata nos pesadelos tormentos
Conhecido ébrio dos bordeis anônimos
Gigolô das letras, em versos esgrima
Rompe o vitral - sonho à pedradas
Traz para si o alo sinistro da dor
Quebrando o frasco do ciúme
Monógamo, louco e infiel.
- 02/09/99 -
sábado, 24 de setembro de 2011
SILÊNCIOS DO PAREDÃO
Gostaria de dividir com vocês um sentimento que o Paredão da Urca me proporciona
SILÊNCIOS DO PAREDÃO
gabriel m. ribeiro Há um místico dourado espelhado nas marolas encantadas do poente outonal.
No balbuciar destas águas percebia-se o solfejo distante das sereias em dueto com as andorinhas nas revoadas de retorno aos ninhos.
Um diálogo da natureza entre: o distante adeus do sol que balbuciava segredos com as espelhadas águas.
Algo confidencial, talvez malicioso, e certamente em cumplicidade, e estas mesmas águas respondiam através dos últimos, generosos e sensuais reflexos dourados.
Um sigilo explícito de quem reinou incandescente durante quase doze horas, tornando azul todas as águas, que como a montanha, até então verdejante, torna-se escura tal e qual uma temida noite de infância repleta de raios, relâmpagos e trovoadas.
Olho para o sol e vejo os raios agonizantes; olho para as águas douradas e elas transformam-se em negro tapete de sigilos e mistérios.
Procuro as andorinhas e vejo que os velozes morcegos já procuram as amendoeiras.
Procuro o calor do sol e sinto os débeis arrepios do anoitecer.
Procuro a luz e encontro, neste despedir magnífico de mais um dia, a magia e a energia de quem tem o incomensurável privilégio de poder ouvir os silêncios do nosso paredão.
"…óra pro nóbis peccatóribus
nunc et in hóra mórtis nóstrae.
Amen."
01 / 08 / 08
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
EXERCÍCIO III - Vácuos
gabriel m. ribeiro
Abraça
o vulto sem corpo
sem braços
sem credo.
O corpo sem alma
alma sem culto
vulto sem culto
culto sem credo.
Beija
a boca sem viço
sem voz
sem cor.
O viço sem brilho
brilho sem riso
boca sem riso
riso sem cor.
- 08/08/99 -
EXERCÍCIO II - Escolhas
gabriel m. ribeiro
Escolha nosso sonho
Realidade amorfa
Sono amnésia
Sonhos transparentes
Lembrança sem memória
Memória sem registro.
Escolha nossa realidade
Sonho amorfo
Amnésia do sonho
Transparência nos sonos
Memória sem lembrança
Registros sem memória.
EXERCÍCIO I - Lágrima
gabriel m. ribeiro
- 13/05/99 -
Lágrima em forma de pétala
Pétala em forma de música
Música em forma de beijo
Beijo em gosto de lágrima.
Lágrima em forma de beijo
Beijo em forma de pétala
Pétala em forma de música
Música em gosto de lágrima.
Lágrima e pétala
Nascem...
Música e beijo
Crescem...
Lágrima e música
Vivem...
Beijo e pétala
Morrem...
- 13/05/99 -
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
EU SÓ QUERIA LEMBRAR
Breve viagem a um lúdico passado proporcionada pela harmoniosa delicadeza e aperreio de belezura profunda da poesia de Asta Vozondas - "eu só queria saber", da qual, como cajá-manga furtado ao quintal vizinho, "apropriei-me" do sentido de alguns versos.
EU SÓ QUERIA LEMBRAR
gabriel m. ribeiro
Poema em letra maiúscula,
retrato-saudade-aquarela
da suíte em pé de jaca
ou qualquer outra árvore
nascida para mim, para ela.
Para que céus voaram meus sonhos?
e os sonhos balões desta menina?
e os sonhos de todos nós?
Doces olhares da infância
que bem sabem vasculhar a alma
de todos, de tudo.
O andar requebro inocente
misturado a topada,
o pisar na poça d'água
o chute na lata vazia.
Doce pé de jabuticaba
forte galho de goiabeira
vermelho ácido pitangueira
farto fruto doce da mangueira.
Banhos nus e inocentes
corpos glabros e pueris
o açude, cachoeira e nascente
pingos d'água, gotejar
arco-íris e colibris.
Onde foi a menina?
Onde fomos?
Onde fui?
- 19/02/2000 -
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
ESTRADA - RETORNO
gabriel m. ribeiro
Amigo,
meu grande receio
p’ra você que agora está voltando
é que nada de novo posso lhe ofertar.
Amigo,
meu grande orgulho
ver você vencendo medos, partindo
e o melhor desconhecido para si procurar.
Amigo,
minha grande vergonha
ver você agora cansado retornando
é que nada diferente ou mudado vai encontrar.
Retorna,
da Casa do Sol Nascente
com a mochila vazia
coração ôco, farrapos...
Retorna,
da Route 66
com a barraca libertária
presa por barbantes, trapos...
Retorna,
de Maromba ou de Mauá
transladado em caronas
poesias em guardanapos...
Descansa o corpo,
carcaça que envelheceu
na procura idílica dos ícones
em molduras sonhadas de liberdade.
A botina troncha e gasta
já não parte nem procura
cansada, cega, se arrasta
e na estrada literária se tortura.
No ar volatizaram-se as esperanças
nas sinuosas e calientes fumaças das fogueiras
que laconicamente agonizam como cinzas frias
em tocos de carvão, um dia gravetos de madeira.
O caneco morno de nescafé
não aquece sequer os dedos, os dentes
que amarelos e manchados ficaram
pelos cigarros tragados na imensidão da estrada.
E no acalanto espectro do poente livre
bagulhos e baganas deixaram o forte cheiro
nas roupas, na boca, na imaginário, na cabeça,
e queimaram delirantemente até ao fim.
Até a ponta dos dedos...
Até ao limite dos sonhos...
Até às Finlândias de Penedo...
Até os alegres e os tristonhos...
Traz seu Di Giorgio sem corda
desbotado bordão e acorde de liberdade
que não mais ecoa nas montanhas
onde a nuvem, hoje, escondia o Sol.
Lucy In The Sky With Diamond
Preta Preta Pretinha !!!
são fitas cassetes oxidadas pela idade
pelos cabeçotes das noites de quem caminha.
Resgata aquele sorriso alegre e juvenil
abre os braços ao abraço de quem te gosta
volta p’ros teus amigos, p’ro teu Brasil
encontra em nosso afeto sua resposta!
Retorna amigo!
- 04/03/99 -
ESPELHO III
gabriel m. ribeiro
Olhei-me pelo espelho velho
Vidro embaçado pelo tempo
Atento, o rosto fosco refletia
A estrada de rugas e fugas.
Estradas de espinhos retorcidos
Coroando a calva de sofrimentos
Corpo do homem rouco
Vazavam a voz e o grito louco
Que ecoavam no vidro velho
Espelho embaçado da vida.
Olhei-me pelo caco de espelho
Vidro partido pelo mal uso
Fragmento de imagem
25/05/99
segunda-feira, 18 de julho de 2011
ESPELHO II
gabriel m. ribeiro
O espelho sorri de mim
Retrata tua face encanto
Graça distante.
O espelho retrata em mim
Encanta tua face acalanto
Sonho provocante.
O espelho encanta em mim
Sorriso tua face pranto
Choro constante.
- 23/05/99 -
ESPELHO
gabriel m. ribeiro
Não saberei nunca explicar
Por que insano me traí
Não deixando meu amor me amar
E intelectualmente me escondi.
Não saberei nunca explicar
Por que profano pequei
Não deixando minha alma almar
E dedilhando frases forjei.
Não saberei nunca explicar
Por que poeta escrevi
Não deixando a você enxergar
E cego egoísta sofri.
- 11/05/99 -
domingo, 3 de julho de 2011
ESCREVO
gabriel m. ribeiro
Escrevo com mãos
que a palmatória inchou
Escrevo com a luz
que na fresta da cela entrou
Escrevo com tremores
que os choques elétricos deixaram
Escrevo com lembranças
que estes anos não apagaram...
Escrevo com mãos
que meu Amigo estendeu
Escrevo com a luz
que na fresta da alma entrou
Escrevo sem temores
que os homens estéreis plantaram
Escrevo com lembranças
que outros anos não apagaram...
- 08/09/2000 -
quinta-feira, 23 de junho de 2011
ERREI
gabriel m. ribeiro
Por que errei tanto?
Errei nas escolha das palavras e contexto
Adjetivando-te como aceita nossa parceria
Sem consultar-te construi meu vasto texto
Sendo que como substantivo tu não me querias.
Errei na escolha do verbo para declarar
Meu amor pela tua alma e teu sorrir
Usei da primeira conjugação o verbo amar
Não te percebi na terceira conjugação: trair.
Por que errei tanto?
Errei na utilização da pessoa desta voz
Que julguei terna, doce, som de bouquet
Na opção eloquente elegi sempre o nós
Não percebendo ser ela unicamente: você.
Errei ao te mostrar no caminho o perigo
Das línguas alheias e das falas ferinas
Destaquei o risco no conselho amigo
Recebendo desdém como paga e propina.
Por que errei tanto?
Errei ao te oferecer um limpo apagador
Para corrigir os garranchos mal escritos
Mas não apagaste o bilhete, e tanto rancor
Ofereceste como essência do nosso conflito.
Errei ao te oferecer certo puro conforto
No confuso pretexto que pude construir
Confundi-me querendo ser mar, nau ou porto
Não vendo que tu’ alma não queria dormir.
- 24/09/99 -
EROS INVERNO POENTE
gabriel m. ribeiro
Quando o sol chiou como fritura entrando no mar,
no poente horizonte de uma praia selvagem,
ouvi o seu primeiro suspiro abafar meu ouvido
e seu primeiro orgasmo molhar minha mão.
Um verão nos aquecia...
ao longe, sob a árvore solitária,
nossos alazões testemunharam,
logo após a cavalgada densa,
encorpada e orquestral
que você realizou sobre meu ventre.
Comungávamos em carne,
sexos fundidos,
ungidos e entrelaçados em pelos!
Uma onda bem maior estourou em nossos corpos
justo quando eclodíamos em prazer pleno,
consagrado orgasmo...
arranhamos a areia com nossas unhas!
Um verão inesquecível...
e na sala uma lareira fazia nascer
a lembrança de um inverno incomparável...
- 28/08/98 -
terça-feira, 24 de maio de 2011
2008 - A Madrugada Estava Linda...
gabriel m. ribeiro
A insônia, quando não crônica, patológica, muitas vezes pode ser um pequeno sinal do inconsciente querendo bater um papinho mais reservado com um Eu consciente.
Mas esta seara é por demais complexa e nela me reservo ao direito de apenas tentar entender alguns poucos rudimentos, sem procurar me transformar em analista/analisado de marie claire, contigo, etc...
Entretanto, nessas conversas surdas e inquietas, muitas verdades pululam nuas, indecentemente nuas, não nos permitindo empurrá-las para debaixo do tapete, ou do travesseiro, e o jeito é conversar com elas e perceber o que pode ser feito para que ela se aquiete pela solução tomada.
Assim, meus macaquinhos saltitaram dentro das inescrupulosas lembranças até que passei para a frequência do devaneio.
A lua estava cheia demais, mais parecendo aquele queijão de minas de tão clara, transformando o ondulado da baía de Guanabara em espelhos salpicados, adornando as copas das árvores com reflexos ligeiramente prateados. Ouvi no dicão 78rpm, de memória biológica, a primeira estrofe de Zé do Norte:
"Lua bonita,
Se tu não fosses casada
Eu preparava uma escada
Pra ir no céu te buscar..."
E foi relembrando este xote, da harmonia do acordeão, do tilintar do triângulo e marcação da zabumba, que a parte alagoana do meu sangue lisergicamente se infiltrou nos labirínticos percursos da fantasia, e entre aquelas verdades nuas, e novas inverdades vestidas para a festa do fantástico, permeou os momentos solitários desta madrugada.
Vi uma bruxa bonita navegando em vassoura de náilon, movida a energia lunar, vestida em longo de seda fina, botas da Arezo, e com prótese de silicone no busto... e ela carregava uma faixa de protesto!
Também percebi que, pulando pelos muros, em rápidos movimentos, com um bela capa bordada com carnavalescas pedras e lantejoulas, o justiceiro Zorro deixava escrito, com a ponta do florete, frases de protesto.
Cavalgando em velocidade, saindo das escuras ruas, atendendo aos tambores de Guran, o Fantasma da Selva e seu fiel escudeiro, o lobo Capeta, percorriam as caixas de correio e deixavam mensagens, quando então, as marcava com seu anel algumas letras de protesto.
Assim, vários heróis da minha infância que comigo a compartilharam por essas ruas, becos, escadarias, matas, morros, pedras e praias, desfilaram nesta insone madrugada.
Mas o temor maior foi quando percebi que a criptonita não era verde como sempre contaram. É branca e que podia ser manipulada para o mal. E pior ainda, uma parte gigantesca dela havia caído na praia da Urca e estava ameaçando todo o bairro. Muitas pessoas não conhecendo seu poder de contaminação e destruição a contemplavam, como que hipnotizadas.
Meu Deus, o que fazer? Será que nossa civilização comunitária seria extinta como já o foram tantas outras. O poder dos Césares um dia ruiu. Maias, Incas, Astecas sucumbiram diante da ganância hispânica. Faraós demonstram hoje suas magnitudes em monumentos arqueológicos. Nem o imponente Império Britânico resistiu... e para nós, deste pequeno recanto do planeta, o que nos está sendo reservado???
Ao amanhecer pudemos ver o que nossos heróis escreveram, ou deixaram marcados como forma de protesto: URCA SIM, IED NÃO!
Cabe lembrar, que apesar de tudo, a madrugada estava linda...
RJ. 15 / 10 /08
gabriel m. ribeiro
educador
2008 - A Noite Estava Linda...
gabriel m. ribeiro
As horas eram imprecisas e a data também. Mas evidente que era em um futuro bem próximo. Um futuro que ocorrera há poucos dias.
Luzes, muitas luzes e flashes de máquinas digitais salpicavam sobre os blushes e strasses, nas brilhantes e fogosas purpurinas e paetês, penetras deste evento vip...
Decotes generosos insinuam-se aos olhares guerreiros, e smokings alugados e belicosos empertigavam a quem brancaleonamente os trajava em nome desta causa.
A porta principal do Museu do Rádio e Televisão Brasileira era o mágico umbral desta magnífica enxurrada de celebridades eternas.
Por ela entrou fogosa, grandiosa em seus 1,53cm de altura a primeira grande artista brasileira, nascida na freguesia de Marco de Canavezes, Província de Beira-Alta, em Portugal, Maria do Carmo Miranda da Cunha, a eterna Carmem Miranda. Os repórteres a assediaram e ela, através de um chat virtual, a todos respondia. Ao seu lado a irmã Aurora pedia que não revelassem seu email e o seu endereço na Av. São Sebastião.
Discreto, em um canto, outro gigante de pouca estatura física, nascido em São Pedro do Uberabinha, hoje Uberlândia, o senhor Sebastião Bernardes de Souza Prata, o talentoso Grande Otelo, conversava animadamente com várias pessoas, entre elas Orson Welles, e a tudo gravava em um mp4.
Alegre e reservado, Herivelto Martins, imortal criador de Ave Maria no Morro, Caminhando, Praça Onze, entre centenas de outros grandes sucessos do rádio e do disco dedicava gentilezas a quem pedia seu dvd.
Discreto, sentado em um degrau do hall principal, apreciando um picolé Jajá de Coco, Neil Sedaka aproveitando a repercussão dos sucessos "Oh! Carol" e "Stupid Cupid" se comunicava com o público brasileiro. Não parava de atender os fãs pelo celular promocional, e pelo msn.
Um pouco mais formal, o cantor da voz aveludada, Johnny Mathis procurava Gontijo Theodoro, do Repórter Esso no saguão repleto, para que este o explicasse o que significava aquilo tudo. Havia uma baiana vendendo acarajés e abarás enquanto Caymmi, com sua voz grave olhava para as alvas areias da Praia da Urca e cantarolava "O mar quando quebra na praia. É bonito, é bonito".
Nesta época não se forjavam celebridades, havia sim, muita gente de talento e famosa...
Os garçons lutavam para a todos atender, servindo doses de Hi-Fi, Cuba Libre e Daiquiri,
Um rápido silêncio, a orquestra do Maestro Cipó parou de tocar e ouvimos jovens acordes de guitarra que antecederam o pout-pourri de "Festa de Arromba", "Senhor Juiz" e "Pode Vir Quente Que Estou Fervendo". É que Wanderléa, Roberto e Erasmo Carlos chegaram juntos agitando o ânimo dos presentes.
Mal terminaram de cantar e se ouviu uma poderosa voz cantando "É Primavera" e "Azul da Cor do Mar"! Haviam chegado Tim Maia e os Diagonais... também os Golden Boys.
Hilton Gomes trazia pelos braços a bela gaúcha Yeda Maria Vargas, Miss Universo; Chacrinha buzinava próximo a Flavio Cavalcanti, que quebrava discos e se abraçava a Almirante. Ricardo Cravo Albim conversava animadamente com Sérgio Bittencourt, Majestade e Aerton Perlingeiro.
A mais doce de todas as bruxas, Zilka Salaberry, adentrou ao salão gargalhando. Ítalo Rossi sorria sarcástico de alguma torre de castelo do Teatrinho Trol, e Gilberto Martinho, o eterno Falcão Negro, acabava por encontrar Ted Boy Marino, Capitão Asa, Capitão Furacão e o Inspetor Carlos, o eterno Vigilante Rodoviário.
Mas um momento de grande emoção foi quando artistas do Cirque du Soleil, da Intrépida Troupe coadjuvaram aos palhaços Carequinha, Fred, Zumbi, Meio Quilo e Oscar Polidoro, e utilizando todo o fantástico e fantasioso da arte cênica circense, e fizeram a grande mágica, quando e onde tudo e todos que animavam aquela festa retornassem para as telas de vídeos, para os painéis de fotografias, às vitrines de figurinos, aos quadros nas paredes, às colagens e às folhas dos documentos xerografados.
Em seguida a conceituada e talentosa artista Maria Letícia recebeu os visitantes em seu espaço de exposição. Lenine autografava os vários cds em lançamento e Zélia Duncan não escapou do assédio e fotos com admiradores. Chico Anísio matava as saudades do bairro que por tanto tempo o acolheu.
Outras grandes atrações prestigiaram o saguão do antigo Cassino da Urca. Os artistas continuavam a surgir de todos os lados...
Havia gente do teatro de revista: Colé, Costinha, Mara Rúbia, Nélia Paula, Eloina, Gina Le Feu, Esmeralda Barros e Virgínia Lane.
Havia gente do cinema: Norma Benguell, Odete Lara, Leila Diniz, Paulo Villaça, Paulo Porto e Maurício do Valle.
Havia gente da tv preto e branco: Neide Aparecida, Diana Morell, Carmen Verônica, Celia Coutinho, Tutuca, Orlando Drummond, Brandão Filho, Jomeri Pozzoli, Alberto Perez, Walter e Ema D'Avila.
Havia gente da música: Anísio Silva, Orlando Dias, Aracy de Almeida, Maysa, Silvinha Telles, Elizeth Cardoso, Lana Bittencourt, Dalva de Oliveira Julie Joy, Dóris Monteiro, Ângela Maria. Ciro Monteiro, Lucio Alves, Miltinho, Dick Farney, Mirno Barroso, Orlando Silva, João Dias, Paulo Goulart, Carlos Galhardo. Linda e Dircinha Batista, Emilinha Borba, Marlene e Cauby Peixoto!
Neste exato momento acordei assustado, trêmulo, suado e percebi que sonhara.
O Museu do Rádio e Televisão Brasileira não existia e podia ver pela janela aberta os tapumes de uma obra que desconstrói a cada tijolo posto.
Tomei um bom gole de água fresca, e ao retornar ao quarto, antes de deitar, pude ver pendurada na mesma janela, aberta, brilhante, a faixa: Urca Sim! IED Não!
Rio, 10 / 10 / 08
gabriel m. ribeiro
2008 - A Tarde Estava Linda...
gabriel m. ribeiro
A tarde estava linda e apesar das quatro horas, o sol lutava por transpassar as copas incertas das amendoeiras e ainda nos trazia algum suor ao rosto.
Na praça um discreto movimento incomum demonstrava que algo diferente aconteceria na mesma.
Havia uma modesta confecção de mesas, tabuleiros e até algo que se assemelhava com barraquinhas de quermesses... sim, era isto que estava acontecendo, as poucas pessoas ali presentes construíam, ou montavam seus espaços para uma festa junina
Quando o táxi parou, eu ainda tinha na boca o paladar do refinado almoço do qual me retirara. Mas uma forte lembrança da minha infância me provocava a substituir o gosto do salmão pelo do salsichão. Do vinho pelo quentão; da sofisticada sobremesa pela possibilidade de uma maçã do amor, quem sabe um palito de algodão doce, ou mesmo gostosas cocadas pretas.
Fosse o que fosse, eu acabava de encontrar a chance de bem viajar no túnel do tempo e voltar até as inesquecíveis festas juninas da Praça Raul Guedes, da Roquete Pinto, ou da Joaquim Caetano. Deixei-me levar pelas asas e ruas da saudade...
Não conhecia quase ninguém que ali estava e tão pouco procuraram saber quem eu era, apenas quis colaborar, botar a mão na massa e participar desta possibilidade de reconstrução de uma Urca já tão fugidia. Recuperar-me do tempo passado participando deste presente... não me interessou o desinteresse pela minha pessoa, mas me agradou o fato de poder partilhar rápidos momentos de interação a quem, com sede, procurou um refrigerante, uma cervejinha, ou mesmo água.
Contemplou-me servir as crianças, aos idosos, senhoras e mocinhas, contemplou-me também rever pessoas que não conhecia, apresentar-me sem dizer meu nome, não ter sido chamado pelo mesmo em nenhum momento, mas ter feito parte daquele encontro singelo, fantástico, lúdico, mas real.
Como festa junina havia umas modernidades! O correio do amor foi substituído por torpedos nos celulares! Do fotógrafo lambe-lambe não se viam os flashes, substituídos pelos... celulares!! O sistema de alto-falante não anunciou que D.Sara, mãe de Rosana a esperava na barraca da pescaria, quem agora fazia este serviço eram os... celulares!!!
Mas pude ver beijos roubados. Vi, delas, os esguios olhares travessos, e também os olhares implacáveis deles. Vi pipoca de mel, churrasco de queijo coalho - no meu tempo não havia isto. Vi bolo de chocolate, não vi manjar de coco, mas vi bolo de fubá. Não provei o churrasquinho, mas senti o cheiro do pastel. Teve casamento e não teve quadrilha, nem cadeia, mas teve música de forró, pescaria, avós e netos, teve milho cozido... o céu brindava com sereno e estrelas.
As horas cansaram e a festa acabou. O povo dispersou e uns poucos ficaram para o rescaldo da festa. Bandejas com os escombros de chocolate, isopor com ruínas de gelo, bancadas com as digitais das crianças, a boca do palhaço ainda aberta e as bolas de meia espalhadas no chão. Muitos pregos para serem removidos das tábuas, para serem removidos daquele passado tão presente!
Cada prego retirado, cada barraca desmontada, cada tábua transportada, revitalizava a memória de encantos escondidos nas doces trincheiras da saudade e encontrava sua réplica nos desejos inconfessáveis do ex-adolescente sonhador.
Ah! Foram também vendidas camisetas curiosas naquele arraiá com uns escritos: Urca Sim, IED Não! ... e não tinham remendos coloridos, nem reparos!
Muitas das pessoas usavam estas camisas pelo sonho de não ver um sonho de vida ruir. O sonho desabar apoiado em novos pilares, vigas jovens, novas paredes, novas pessoas, novas modernidades sustentadas pelas velhas e corrompidas engrenagens do poder, contrastando com tudo que não habita nem transita numa ingênua festa junina em algum qualquer lugar da sempre Urca!
Inté!
gabriel m. ribeiro
07 / 10 / 08
sexta-feira, 13 de maio de 2011
2008 - A Manhã Estava Linda...
gabriel m. ribeiro
Era uma manhã de domingo... como todos os domingos em que o céu não amanhece absurdamente limpo, a freqüência da praia se torna modesta, mas podemos observar os contumazes "atletas de final de semana" jogando as duplas de vôlei, e a já histórica linha de passe.
Moradores da Urca no vôlei e os participantes da linha de passe já com esta longa convivência específica no bairro. Aproximam-se às dez horas da manhã e um novo contingente de pessoas começa a chegar na calçada em frente ao restaurante local. Havia algo diferente no ar... São moradores locais e não estão vestidos para atividades esportivas. Abraços, beijos, apertos de mãos, acenos, cochichos, bate-papos, e um zum-zum-zum diferente... Chegam alguns outros trazendo galhardetes, estandartes, adereços de mão, faixas, cavaletes, panfletos. apitos, apitos, apitos e, o mais importante, um ãnima especial! Uma bandeira internalizada e convicta dentro do coração. Uma causa justa e rebelde. Uma questão grave, onde já sabemos estão reunidas plurais manifestações do arbítrio, do abuso de poder, da omissão do poder público, da corrupção e do crime administrativo, é que reúne estas educadas pessoas.Sem que se ouçam as três pancadas de Molière, as cortinas da manhã se abrem e o primeiro ato se inicia.Pulam na ribalta duas pessoas vestidas de macacão bege, chapéus amarelos...e nariz de palhaço... o texto é dito nas faixas e estandartes, o ponto é transmitido na panfletagem, a iluminação vem do astro maior, e a sonoplastia emana dos apitos... A platéia é móvel, passa pela cena dentro dos carros, dos ônibus e, ora tímida, ora interativamente, se apercebe do texto e reage de forma diversa. O segundo ato inicia e ganha mais adeptos e novo formato. O palco é semi-coberto de plástico amarelo, o elenco aumenta, figurantes entram em cena, e se deitam no chão... a mímica, a expressão corporal, a plasticidade implícita dialoga com todos os presentes. Dizeres em faixa tremulam nas coxias, como também chegam à boca da cena. Esta cena muda grita com maestria tudo que a criação coletiva comunitária precisa ouvir... Terceiro ato: atores, técnicos, figurantes, platéia, coadjuvantes, enfim, todos os presentes caminham pelo cenário de pedras portuguesas até outro palco. Ao longe, ao largo, alguns rojões anunciam novos participantes desta peça... havia algo diferente no mar. Em cortejo, dezenas de embarcações singravam as calmas águas e se aproximavam da linha litorânea, onde os artistas continuavam agrupados. As traineiras estavam enfeitadas para a devoção ao seu padroeiro, São Pedro do Mar. Há muito esta delicada e sincera manifestação havia sido proibida (?!), mas agora, com auxílio direto da companhia teatral, a censura fora eliminada e estes artistas das águas, compartilhavam a cena maior neste cenário coletivo. Acenos recíprocos, respeito ao ilustre desconhecido, uma alegria fraterna, talvez uma grande esperança mística e, de repente, num arroubo mesclado de ufanismo e risco, um ator leva a dália até o outro artista desta peça e todos lêem o que estava escrito. Desde o primeiro ato, desde o primeiro apito, da primeira panfletagem, passando pela seqüência muda do segundo ato, chegando à partilha da vitória com a grande esperança, e terminando com toda a companhia de braços dados, na beirada do palco, havia uma mensagem intrínseca perpassando "corações e mentes", havia uma não-apresentada fraternidade na concordância de olhares, havia uma nota uníssona regendo todas as vozes, e no cinzel a determinação de esculpir uma nova história. A manhã estava linda... Ah! Ia me esquecendo. O nome da peça é: URCA SIM, IED NÃO! E o autor a AMOUR! gabriel m. ribeiro 09 / 10 / 08
terça-feira, 10 de maio de 2011
Equívoco
gabriel m. ribeiro
Levaste meu tesouro
Coração pirata
Não roubaste moedas de ouro
Mas a paixão que arrebata
Marcando no meu couro
Fundos sulcos de chibata
Arrastaste-me ao matadouro
Amor em agonia insensata.
Levaste meu sorriso
Coração corsário
Não roubaste só o que era preciso
Mas pecaste em meu santuário
Ultrajando este paraíso
Profanaste nosso campanário
Alucinaste a razão, o juízo
As ruínas, destroços, do calvário.
Levaste meus sentimentos
Coração bandoleiro
Não roubaste lágrimas ou lamentos
Mas deixaste, pelego, falso cordeiro
Enganando, vil, a todos momentos
Desorientaste este amor mensageiro
Impregnaste de aflição, de tormentos
Àquele que era teu por inteiro.
- 08/08/99 -
terça-feira, 12 de abril de 2011
À melhor esposa do mundo,
minha Regina
Suculenta pororoca de salivas
- 12/98 -
minha Regina
Por gratidão de tê-la conhecido, tê-la escolhido e sentir-me protegido ao seu lado.
Pelos filhos maravilhosos que me deu e sabiamente orienta-os para vida.
Pela família que você une e conduz.
Pelo amor que sinto por você e só cresce dentro de mim.
gabriel m. ribeiro
ENSAIO PARA REGINA
- INACABADO -
( Nunca conseguirei acabar o que é infinito )
( Nunca conseguirei acabar o que é infinito )
Espelhada em corpo, essência de vida
Brotada da carne, refletida em suor
Imagem e forma moldando úmida
Trêmulas sombras na parede maior
Indiscreto neon que perpassa as persianas,
Insistente brilha e rubra mechas de cabelos,
Doura o veludo seio em insolência cigana
Eclode multicor penumbra, oferta, apelos.
Corpo suado brilhando, perfumado verniz
Reflexo de vida, afeto, materno conforto
Espelha permissões, contrai e vibra feliz
Por missão assume-se destino e porto.
Invadir os lábios, lamber, sufocar a boca
Ávida língua em cálido hálito desejo,
Registro sensual, atitude plena e louca
Definida, dialeticamente, beijo.
Lamber a face e dentar a nuca,
Dorso, festejando frisson e atração
Arrepios doidos, coisa maluca
Destino primário, satisfação.
Romper ruidosos velcrons e sedas
Arranhar a pele e tatear gemidos
Viver o calor lânguido de labaredas
E contemplar o branco seio desprotegido.
Venerar o colo
Contemplar o busto
Solfejar em solo
Suspirar sem susto
Descompassar a respiração
Transpassar um fino calafrio
Terminar elétrica sensação
Onde, pecador, começa o cio.
Lamber as costas pelo meio
Na trilha excitante vertebral
Bebendo a salmoura sem receio
Findando na terna catedral.
Alças e dobras de tecido sintético
Proteção de um pudor hipotético
Impele e conduz impulso magnético
Desnuda o corpo ao prazer estético.
Nua, despida de doces pudores
Cintura , quadril, coxa e anca,
Desnuda com seus roxos odores
Corpo e carne, excitação franca.
Corpo sensual, gente
Que oblitera os olhos que a vêm
Corpo sensual, crente
Que absorve o cerne de quem a tem.
Lasciva luta em consenso começa
Permuta de olhos brilhantes
Faiscam chocantes promessas
Se devoram a todos instantes.
Fluorescentes fagulhas, centelhas
Rajando em atrito de amor, tesão
Mergulho em carnes vermelhas
Fôlego, suspiro, satisfação.
Suculenta pororoca de salivas
Duelo de línguas, emoção
Simbiose de sumos, agressiva
Nome: beijo; odor: paixão
Nas quatro paredes o amor prolifera
Drena libido, sangue e cresce o nervo
A carne corresponde à Bela e à Fera
Êxtases e orgasmos se acumulam em acervo.
Os cheiros avançam
Sensações transformam-se em tremidos
Os aromas dominam
Sons se realizam em gemidos.
Vai-se ao limite do pecado
Formas de absoluta luxúria
Explode e relaxa realizado
Após muitos gozos em fúria
Um beijo de estilo secreto
Fálico cetro de calor retinto
Borbulhas de prazer e afeto
Plenitude de amor e instinto
Entrega do corpo submisso
À devoção total, irrestrita
Laços de eterno compromisso
Aliança na carne, infinita.
Obrigado amor, incomparável companheira
Fogosa mulher e suave eterna menina
Musa, amiga, amante, deusa - parceira
Esposa, princesa, Ave Rainha: Ave Regina.
- 12/98 -
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