sábado, 24 de setembro de 2011

SILÊNCIOS DO PAREDÃO

Gostaria de dividir com vocês um sentimento que o Paredão da Urca me proporciona

SILÊNCIOS DO  PAREDÃO
gabriel m. ribeiro

Há um místico dourado espelhado nas marolas encantadas do poente outonal.
No balbuciar destas águas percebia-se o solfejo distante das sereias em dueto com as andorinhas nas revoadas de retorno aos ninhos.
Um diálogo da natureza entre: o distante adeus do sol que balbuciava segredos com as espelhadas águas.
Algo confidencial, talvez malicioso, e certamente em cumplicidade, e estas mesmas águas respondiam através dos últimos, generosos e sensuais reflexos dourados.
Um sigilo explícito de quem reinou incandescente durante quase doze horas, tornando azul todas as águas, que como a montanha, até então verdejante, torna-se escura tal e qual uma temida noite de infância repleta de raios, relâmpagos e trovoadas.
Olho para o sol e vejo os raios agonizantes; olho para as águas douradas e elas transformam-se em negro tapete de sigilos e mistérios.
Procuro as andorinhas e vejo que os velozes morcegos já procuram as amendoeiras.
Procuro o calor do sol e sinto os débeis arrepios do anoitecer.
Procuro a luz e encontro, neste despedir magnífico de mais um dia, a magia e a energia de quem tem o incomensurável privilégio de poder ouvir os silêncios do nosso paredão.
"…óra pro nóbis peccatóribus
nunc et in hóra mórtis nóstrae.
Amen."
01 / 08 / 08

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

EXERCÍCIO III - Vácuos

gabriel m. ribeiro
Abraça
o vulto sem corpo
sem braços
sem credo.
O corpo sem alma
alma sem culto
vulto sem culto
culto sem credo.

Beija
a boca sem viço
sem voz
sem cor.
O viço sem brilho
brilho sem riso
boca sem riso
riso sem cor.

-  08/08/99   -

EXERCÍCIO II - Escolhas

gabriel m. ribeiro


Escolha nosso sonho
Realidade amorfa
Sono amnésia
Sonhos transparentes
Lembrança sem memória
Memória sem registro.

Escolha nossa realidade
Sonho amorfo
Amnésia do sonho
Transparência nos sonos
Memória sem lembrança
Registros sem memória.


-  21/05/99 

EXERCÍCIO I - Lágrima

gabriel m. ribeiro

Lágrima em forma de pétala
Pétala em forma de música
Música em forma de beijo
Beijo em gosto de lágrima.

Lágrima em forma de beijo
Beijo em forma de pétala
Pétala em forma de música
Música em gosto de lágrima.

Lágrima e pétala
Nascem...
Música e beijo
Crescem...
Lágrima e música
Vivem...
Beijo e pétala
Morrem...


-  13/05/99  -